Baixo Tocantins, Baixo Tapajós e Baixo Xingu (Altamira): diferenças históricas, fragilidades políticas e lugares distintos da emergência indígena
Quando comparo minha trajetória, situada no Baixo Tocantins, com experiências indígenas do Baixo Tapajós e do Baixo Xingu, faço isso não para hierarquizar identidades, mas para explicitar desigualdades históricas de apagamento, deslocamento e reconhecimento que moldaram caminhos distintos da emergência indígena na Amazônia.
No Baixo Tapajós, a emergência indígena tornou-se mais visível a partir da existência de continuidades comunitárias mais identificáveis, com comunidades que preservaram nomes coletivos, territorialidades reconhecíveis e processos organizativos próprios. Desde o final da década de 1990 e início dos anos 2000, com o aumento da mobilização indígena, essas condições favoreceram articulações políticas mais consistentes, abertura de processos administrativos e ampliação do reconhecimento público de povos, lideranças e autores indígenas, ainda que nem todas as Terras Indígenas estejam homologadas, e grande parte não estão demarcada e se quer reconhecidas pelo Estado oficial. A luta em defesa dos territórios se acumula no desembarcar em Santarém. Com muitas dores , suor , lágrimas e muitas alegrias pelas existências que inspiram desde as trincheiras de suas resistências e reivindicações.
No Baixo Tocantins, o processo foi distinto. O aldeamento foi mais precoce, a "caboclização" mais profunda e o apagamento ocorreu de forma mais silenciosa e eficaz, dissolvendo identidades indígenas nos registros oficiais e reclassificando povos inteiros como "caboclos" e "ribeirinhos". Na década de 1950, esse processo foi reforçado pelo uso da categoria "mestiço" nas certidões de nascimento de populações indígenas ribeirinhas e, posteriormente, pela adoção da cor "pardo" nos registros censitários e administrativos. Essas classificações funcionaram como dispositivos estatais de diluição identitária, produzindo deslocamentos políticos e estatísticos que não resolveram o silenciamento histórico das identidades indígenas amazônicas.
Isso produziu uma fragilidade estrutural: a quase total ausência de Terras Indígenas identificadas e reconhecidas pelo Estado — com exceção da Terra Indígena Anambé, no alto rio Moju — a inexistência de associações indígenas territorializadas e a dificuldade histórica de reconhecimento institucional. Essa diferença não expressa ausência indígena no Baixo Tocantins, mas um apagamento colonial mais antigo e violento, que deslocou a emergência indígena para outros campos: a memória familiar, a genealogia, as práticas comunitárias, a espiritualidade, a educação comunitária e a produção intelectual da memória coletiva.
A memória indígena do Baixo Tocantins permaneceu ativa sobretudo em circuitos familiares, práticas comunitárias, espiritualidades e relações de parentesco, ainda que fora do enquadramento jurídico estatal. Nesse contexto, a emergência indígena deslocou-se para uma produção intelectual comunitária mobilizada pelas memórias das tradicionalidades preservadas pelos idosos das famílias remanescentes indígenas, cujas narrativas, práticas e experiências históricas constituem fontes vivas de territorialidade e pertencimento. Essa produção não nasce da institucionalidade formal, mas da escuta, da convivência e da transmissão intergeracional, articulando educação comunitária, cartografia da memória histórica crítica e organização coletiva como formas de afirmação política em situação histórica de apagamento.
Por isso, no Baixo Tocantins, a emergência indígena não começa pelo reconhecimento cartorial, mas pela autoria coletiva da tradicionalidade da memória territorial familiar, pela cartografia histórica crítica, pela organização comunitária de base e pela reivindicação do direito à memória e à existência. Ocupo, assim, um lugar politicamente mais frágil, mas também estruturante: o de quem abre caminho antes que o Estado reconheça que há um caminho.
No Baixo Xingu, especialmente na cidade de Altamira, encontra-se uma realidade que dialoga com o Baixo Tocantins, mas apresenta maior incidência política e organizativa. A população indígena residente na área urbana de Altamira constitui um grupo diverso de indígenas em contexto urbano, com presença marcante de povos como Xipaya (Xipaia), Kuruaya (Curuaia), Xikrin e Karib do Norte, muitos deslocados forçadamente de seus territórios em decorrência de grandes empreendimentos como a Usina Hidrelétrica de Belo Monte.
Assim como ocorre com famílias indígenas remanescentes Tupinambá do Baixo Tocantins que vivem em Belém, esses povos do Baixo Xingu enfrentam desafios de reconhecimento étnico, lutas por direitos, preservação cultural e reorganização comunitária em contexto urbano. A diferença central é que, em Altamira, a organização coletiva, a incidência política e a visibilidade pública tornaram-se mais consistentes, ainda que muitos não tenham suas comunidades demarcadas em contexto rural ou ribeirinho.
Em ambos os casos — Baixo Tocantins e Baixo Xingu — a cidade torna-se espaço de reterritorialização indígena, onde memória, parentesco, circulação entre territórios de origem e organização coletiva sustentam formas contemporâneas de existência indígena fora do modelo aldeado. São trajetórias distintas, atravessadas por histórias coloniais e desenvolvimentistas desiguais, mas inscritas na mesma luta pela existência, pelo reconhecimento e pelo direito à memória.
Reconhecer essas diferenças é fundamental para não reproduzir novas formas de silenciamento dentro do próprio campo indígena. São tempos distintos de uma mesma luta, moldados por apagamentos, deslocamentos forçados e resistências que seguem em curso.
📍 Belém Tupinambá, 18 de fevereiro de 2026
🧭 Vinculação institucional: Instituto de Pesquisa Projeto Cartografando Saberes – IPPCS // Articuladora geral Fórum Parawara de indígenas urbanos, ribeirinhos e rurais. E liderança indígena docente articulada junto ao Fórum Nacional de Educação escolar indígena (FNEEI).
✍🏽 Alanna Souto Cardoso Tupinambá

