Entre a fome, a (in)visibilidade e o direito legítimo de existir- Por Alanna Souto Cardoso Tupinambá

Fonte visual criativa da imagem Assistência I.A do site IPPCS, espaço de criação visual.
As cestas que as comunidades indígenas necessitam e demandam não são excesso, não são favor: são cestas básicas, garantia mínima de alimentação adequada.
E, ainda assim, seguem em espera.
Quando a lucidez indígena urbana — tantas vezes nomeada como "mestiza?" e, por isso mesmo, invisibilizada ao longo da formação de muitos que hoje se apresentam como educadores — se articula com essas comunidades indígenas (mestizas?), do Xingu ao Alto Rio Amazonas, o que se revela é o óbvio do alto dos privilégios que insistem em não ver: a espera por comida, mesmo onde há rios, mesmo onde a vida insiste em brotar.
Há, no entanto, quem escolha não enxergar.
Aqueles que habitam o egocentrismo das lentes coloniais não apenas ignoram essa realidade — operam, muitas vezes, para silenciar, apagar, eliminar historiador@s e educador@s indígenas.
É disso que se trata:
uma historicidade da morte.
E o que fere ainda mais fundo é quando essa opressão se infiltra nos próprios processos de avaliação — nos espaços que deveriam reconhecer trajetórias, mas que passam a vigiar e eliminar.
Processos que envolvem candidaturas indígenas.
Candidaturas de indígenas emergentes.
E é preciso dizer: ser indígena emergente não é ser indígena desconectado de sua realidade,
nem alguém apartado da real memória familiar e comunitária que o constitui.
Os indígenas emergentes carregam memória.
Memória da tradicionalidade, da ocupação da terra, dos vínculos comunitários.
São trajetórias atravessadas por deslocamentos — por forças naturais, por impactos sociais, pelo processo de urbanização — que, desde o início do século XX, enfrentam as consequências do terceiro processo de territorialização dos povos indígenas, engendrado pelo Estado, sendo, mais uma vez, empurrados à condição de povos migrantes diaspóricos, expressão de uma realidade historicamente marcada nas regiões de colonização mais antiga.
Aliás, os povos indígenas brasileiros e amazônidas são, em sua história, povos migrantes.
E, em muitos casos, vivem até situações de refúgio — tal como povos imigrantes que também lutam por políticas afirmativas nos territórios que os acolhem.
Mas essa incompreensão não vem apenas de fora.
Ela atravessa espaços de luta, espaços acadêmicos.
Tem vindo, infelizmente, de avaliadores — inclusive daqueles que se reconhecem no movimento negro, mas que pouco dialogam com as realidades indígenas contemporâneas.
É isso que mais dói.
Dói para o movimento negro.
Dói para o movimento indígena.
Dói perceber que, quando um negro ou um indígena se forma a partir de uma educação que não é libertadora — quando é atravessado por uma educação bancária — algo se desloca.
E aí, o bicho pega.
Porque o sonho dos oprimidos pode ser capturado.
E, quando a educação não é libertadora, esses sonhos, por vezes, retornam como novas formas de opressão.
Eliminar candidaturas indígenas legítimas — honestas em seus processos declaratórios, em sua identidade étnica, em seu domínio de conteúdo e em sua formação — é uma dessas formas.
É uma violência.
Uma violência que tenta silenciar aqueles que, ainda assim, seguem enfrentando os processos públicos de avaliação.
E, ainda assim, seguem existindo. E resistindo.

