
De 2021 a 2025 – um período de construção, lutas, encontros, rupturas , retomadas e organização. A Solar Cátedra Livre articula agendas e mapeia produções em educação popular, comunicação e patrimônio comunitário.
ENTRE A PAUSA E A LUTA: NOTAS DE UMA TRAJETÓRIA POLÍTICA EM REORGANIZAÇÃO
Texto político-autobiográfico da Diretora-Geral do IPPCS sobre pesquisa, extensão, reorganização institucional e defesa de direitos (2022–2025)
Por Alanna Souto Cardoso Tupinambá
Aprendi, nos últimos
anos, que resistir também exige pausa.
E que reorganizar a própria vida pode ser um gesto profundamente político.
O ano de 2025 foi, para mim, um tempo de rearranjo: da saúde, da direção institucional, da trajetória acadêmica e da forma como sigo me posicionando no espaço público. Após um ciclo contínuo de sobrecarga iniciado em 2022, decidi interromper o ritmo exaustivo que muitas vezes se impõe a mulheres que ocupam lugares de liderança, especialmente quando essas mulheres atuam entre universidade, territórios tradicionais e sociedade civil organizada.
Estive afastada da sala de aula, mas não da política da educação comunitária e de seus movimentos. Pelo contrário: foi justamente nesse afastamento que pude reorganizar prioridades, estudar com profundidade para concursos públicos, finalizar meu segundo pós-doutorado e concluir projetos editoriais de caráter coletivo, como a Coletânea Autoras Amazônidas, atualmente in prelo (em processo de publicação) pela Revista Científica de Gênero e Amazônia (RCGA/UFPA), em articulação com o GEPEM, materializada com o cuidado ético, político e editorial que as autoras e os territórios envolvidos merecem.
O segundo pós-doutorado exigiu de mim especial cautela na forma de registrar e narrar o percurso. Trata-se de um estágio realizado no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade do Estado do Pará (PPGG/UEPA), conduzido com rigor acadêmico e sensibilidade política, sob a supervisão do professor Fabiano Bringel. A bolsa de pós-doutorado foi concluída em outubro de 2024, período em que também se encerraram formalmente as atividades de pesquisa e extensão previstas no plano de trabalho.
Nesse ciclo, foi realizado um curso de extensão universitária que articulou formação teórica e prática, envolvendo alunos e pós-graduandos quilombolas, educadores da educação popular e sujeitos historicamente afastados dos espaços formais da universidade. A experiência foi construída em diálogo direto com os territórios, consolidando-se como um processo formativo territorializado, comprometido com metodologias críticas e com a devolutiva social da pesquisa.
Embora a pesquisa e a extensão tenham sido finalizadas ao longo de 2024, os processos de organização, sistematização e cuidado ético com os dados — como ocorre em trabalhos comprometidos com comunidades e sujeitos coletivos — estenderam-se para além do encerramento formal da bolsa. Ao longo de 2025, dediquei-me à consolidação do banco de dados, à revisão de registros pedagógicos, cartográficos e narrativos, bem como às regravações finais realizadas em dezembro de 2025, necessárias para assegurar a qualidade técnica do material e a fidelidade aos acordos estabelecidos com os participantes.
Esse trabalho de bastidores ocorreu simultaneamente a um período de intensa exposição institucional, marcado pela participação em concursos públicos e processos seletivos simplificados (PSS), além da necessidade de formalizar denúncias junto ao Ministério Público Federal (MPF) e ao Ministério Público do Estado do Pará (MPPA), neste último caso por situações caracterizadas como violência política de gênero.
Não se tratava de conflitos interpessoais, mas de violações objetivas de direitos, de critérios públicos claramente definidos e reiteradamente desrespeitados, envolvendo práticas de silenciamento, deslegitimação institucional e tentativas de desqualificação da atuação política e profissional de mulheres indígenas, em posição de liderança autônoma e crítica.
Há um padrão recorrente nesses contextos. Quando mulheres enfrentam estruturas arbitrárias com base em argumentos técnicos, jurídicos e administrativos, leituras machistas tendem a deslocar o debate do campo dos direitos para o campo da desqualificação moral. A liderança passa a ser enquadrada como "difícil", "problemática" ou "excessiva". Em casos mais explícitos, tenta-se atribuir instabilidade emocional ou traços de conflitividade — um mecanismo antigo, conhecido e profundamente opressor.
Ainda assim, é fundamental registrar: há mais alianças do que figuras adoecedoras nesse percurso. Há redes de apoio, parcerias éticas e pessoas comprometidas com o interesse público e com a legalidade. Tentativas de macular a imagem de uma liderança não prosperam quando ela atua com método, documentação, clareza política e senso crítico. Algumas situações chegam a beirar o absurdo — bloqueios súbitos de diálogo, silêncios artificiais e narrativas posteriores que tentam imputar instabilidade a quem apenas seguiu lutando por direitos. Em certos momentos, resta reconhecer a ironia da cena e seguir adiante.
Paralelamente, mantive minhas consultorias, articulações e o trabalho institucional no Instituto de Pesquisa do Projeto Cartografando Saberes (IPPCS). Em 2025, consolidou-se também um projeto estratégico de longa duração, viabilizado por emenda parlamentar e formalizado por termo de fomento do Governo do Estado do Pará, com a Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Educação Profissional e Tecnológica (SECTET) assumindo o papel de instituição anfitriã.
A Universidade do Estado do Pará (UEPA), por meio do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGED), com mediação institucional do professor João C. da Mota Neto, integra essa construção em regime de parceria, assegurando o caráter público, acadêmico e territorializado da iniciativa. Trata-se de um projeto que não nasce pronto: será desenhado em processos de consulta com educadores comunitários, lideranças e coletivos dos territórios envolvidos. Não concebo extensão universitária sem escuta, nem formação que não seja pactuada com aqueles que vivem a realidade que se pretende transformar.
Diante de tudo isso, reafirmo a importância da aprovação em concursos públicos, especialmente para docentes indígenas, cujas trajetórias de liderança e reconhecimento comunitário nem sempre aderem a formas de representação como cacicados ou à condição de "aldeados", categorias historicamente privilegiadas pelo Estado colonial como critérios quase exclusivos de reconhecimento. Muitas lideranças indígenas constroem suas trajetórias a partir de outros arranjos comunitários, urbanos, ribeirinhos e territoriais, articulando memória, pertencimento, mobilidade e luta política entre cidade e campo. Reconhecer essa diversidade não fragiliza identidades; ao contrário, afirma estratégias contemporâneas de autonomia, inclusão intelectual e incidência política, especialmente no âmbito do mundo do trabalho e do acesso a políticas públicas.
Nesse sentido, as políticas afirmativas em concursos públicos constituem um campo estratégico fundamental. No Estado do Pará, a Lei Estadual nº 11.286, sancionada em dezembro de 2025, passou a reservar 30% das vagas em concursos públicos e processos seletivos da administração estadual — direta e indireta — para pessoas pretas, pardas, indígenas e quilombolas. A legislação abrange tanto cargos efetivos quanto contratações temporárias, com impacto direto sobre editais iminentes, como os da SEFA/PA, ampliando de forma concreta as possibilidades de acesso e permanência de sujeitos historicamente excluídos.
No âmbito federal, a Lei nº 15.142, de 3 de junho de 2025, instituiu igualmente a reserva de 30% das vagas em concursos públicos e processos seletivos da administração pública federal para pessoas pretas, pardas, indígenas e quilombolas. A nova legislação substitui a antiga Lei nº 12.990/2014, ampliando o percentual de 20% para 30% e, de forma inédita, incluindo formalmente indígenas e quilombolas no escopo da política. Trata-se de um avanço significativo no reconhecimento jurídico da diversidade étnico-racial do país e na consolidação de mecanismos estruturais de correção das desigualdades históricas.
Esses marcos legais reforçam que o acesso ao serviço público, quando orientado por critérios afirmativos, não se configura como privilégio, mas como estratégia de autonomia material, intelectual e política, especialmente para lideranças indígenas cujas trajetórias não se enquadram nos modelos coloniais de reconhecimento, mas que exercem papel central na produção de conhecimento, na mediação institucional e na defesa de direitos coletivos.
E, se algum dia eu viesse a ocupar um cargo de governo, só conseguiria fazê-lo nos termos de uma governabilidade crítica e coerente, tal como Paulo Freire, quando atuou como Secretário Municipal de Educação de São Paulo (1989–1991), na gestão da prefeita Luiza Erundina. Um exercício difícil — governabilidade versus autonomia libertadora — sustentado por voz, discernimento crítico e poder real de decisão. Um educador à frente de seu tempo. Não sonho com cargos nem com secretarias. Defendo condições concretas para fazer política sem me tornar refém de estruturas que exigem incoerência como moeda de permanência.
Dialogo com diferentes governos e instituições porque faço política pública desde os movimentos sociais, e não a partir do topo da pirâmide. Mas dialogar não é se submeter. Em um cenário nacional marcado por falsas equivalências e discursos oportunistas, sigo afirmando que há diferenças substantivas entre projetos de país. A democracia, com todas as suas contradições, continua sendo um campo necessário de disputa.
Reorganizar a vida, mudar de casa, cuidar da saúde, silenciar em alguns momentos e falar com firmeza em outros — tudo isso também é política. Em um mundo do trabalho hegemonicamente masculino, sustentar uma trajetória marcada pela autonomia identitária exige discernimento, coragem e responsabilidade. Trata-se de afirmar, com dignidade, a própria (auto)sustentabilidade, construída por meio de parcerias bem definidas, no exercício intelectual e político de uma vida profissional que se cruza, de forma indissociável, com vidas coletivas, territórios e compromissos públicos. É nesse entrelaçamento que a luta se renova: quando o cuidado de si não se opõe à responsabilidade com o outro, mas a fortalece, permitindo seguir com coerência, memória e horizonte.
Prossigo.
Com projetos, com método, com alianças, com a saúde mental em atenção e com
memória.
E com a certeza de que quem sabe e faz a hora não espera acontecer.
Nota explicativa
As referências a denúncias e encaminhamentos institucionais mencionadas neste texto dizem respeito a situações analisadas à luz de marcos legais e normativos vigentes, especialmente no que se refere à garantia de direitos, à observância de critérios públicos e à prevenção de práticas de silenciamento e deslegitimação de mulheres em espaços institucionais.
A menção à violência política de gênero é utilizada em sentido técnico-conceitual, conforme reconhecido na literatura especializada e na legislação brasileira, sem personalização de agentes ou detalhamento de procedimentos, preservando-se o caráter reflexivo, acadêmico e memorial do presente texto.

