XE TUBÁ

Meu pai indígena Tupinambá: memória-território, existência e emergências étnicas
Autoria
Profa. Dra. Alanna Tupinambá
Presidenta / Diretora-Geral
Instituto de Pesquisa do Projeto Cartografando Saberes – IPPCS
XE TUBÁ
Meu pai indígena Tupinambá.
Hoje completa 76 anos de vida, de existência autônoma e sobrevivente.
É expressão viva de um sujeito coletivo, cuja trajetória atravessa a floresta e a cidade, articulando memória, trabalho, ancestralidade e resistência.
O Estado tentou nomeá-lo como "caboclo", como mestiço — uma história redondinha, funcional, que por muito tempo coube na história oficial, aprisionada na gaiola da História, para servir à ideologia da mestiçagem. Uma engenharia do apagamento que buscou diluir identidades indígenas e neutralizar pertencimentos coletivos.
Ainda assim, Tupinambá não foi dissolvido.
Permanece vivo no corpo e no tempo, na memória-território e na memória-corpo.
Vive na avó que se reacende.
No pai que declara.
Tecendo tradições em tensão com o documento que rege e tenta conter. Da caneta — convertida em flecha — lançada com precisão para os alvos certos: os direitos coletivos indígenas Camutá Tupinambá do Baixo Tocantins.
É também na primeira geração de remanescentes indígenas que se afirma a demarcação, no presente, de um passado continuamente disputado e de um futuro em construção. Uma geração que se reconstrói, inclusive, na capital do Pará, deslocando a ideia de que identidade indígena pertence apenas ao "longe" ou ao "antes".
E o pai ainda está aqui.
Porque retomar o território, muitas vezes, se dá pela retomada da memória: documentar, narrar, tecer tradições, reinscrever experiências. A ocupação consciente dessa memória, pela tradicionalidade das vivências e dos modos de vida, constitui identificador étnico, marca de pertencimento e afirmação de existência.
Esse percurso também revela um mundo de trabalho sofrido, no qual poucos subsistem sob desigualdades estruturais profundas, em que classe, etnia, gênero e raça não se separam — se acumulam.
Mas também ensinam a crescer, a aparecer, a se afirmar coletivamente.
São emergências étnicas.
Força que brota da base coletiva, das tradicionalidades da memória indígena que se reconhece, se [re]nomeia e se [re]organiza.
E é na organização coletiva que se torna possível transformar:
mudar aquilo que foi invisibilizado, tantas vezes silenciado, tantas vezes apagado.
A memória, aqui, não é passado encerrado.
É gesto vivo, político e pedagógico.
Memória que retorna para existir, para demarcar, para fazer aparecer aquilo que insistiram em esconder.

